Líderes de 11 países reunidos na Cúpula do Brics, em Nova Delhi, aprovaram uma declaração conjunta que registra “profunda preocupação” com as tensões no Oriente Médio, critica tarifas unilaterais no comércio internacional e defende maior peso do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. O encontro ocorreu nos dias 12 e 13 de setembro, e o texto final, batizado de “Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”, foi divulgado no sábado (12).
Integram atualmente o Brics Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã — juntos, os 11 países somam 39% da economia mundial, 48,5% da população do planeta e 23% do comércio global. O Brasil presidiu o bloco em 2025 e sediou a cúpula anual em julho, no Rio de Janeiro. Já o encontro em Nova Delhi teve a presença do anfitrião, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, além dos presidentes Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Cyril Ramaphosa (África do Sul) e Masoud Pezeshkian (Irã); os Emirados Árabes Unidos enviaram o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, e o Brasil foi representado pelo chanceler Mauro Vieira. Para Xi Jinping, foi a primeira viagem à Índia em sete anos.
Divisão entre Irã e Emirados Árabes sobre a guerra
Um dos pontos mais aguardados do encontro era justamente como o bloco trataria a guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã sob a alegação de que o país desenvolvia armas nucleares, o que Teerã nega. Em retaliação, o Irã atacou os Emirados Árabes e a Arábia Saudita, países alinhados aos EUA e também integrantes do bloco. O conflito levou ao fechamento virtual do Estreito de Ormuz, um dos principais pontos de estrangulamento do comércio de petróleo no mundo, elevando os preços do petróleo bruto para mais de US$ 100 o barril, e os Emirados Árabes Unidos suspenderam, em agosto, todas as transações comerciais e financeiras com o Irã.
Antes da cúpula, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, havia dito que as diferenças entre Emirados Árabes Unidos e Irã tinham “impacto negativo” e dificultavam a elaboração de uma declaração conjunta, mas expressou esperança de que os líderes encontrassem uma formulação aceitável para ambos os países. Em maio, os ministros das Relações Exteriores do bloco não haviam conseguido emitir uma declaração conjunta após reunião em Nova Delhi, justamente por causa dessas divergências.
Com 35 páginas e 140 parágrafos, a declaração final manifestou preocupação com a situação, mas não se dirigiu exclusivamente à região do Golfo Pérsico: o parágrafo 28 não cita diretamente os países envolvidos nem usa a palavra “guerra”. “Expressamos profunda preocupação com a contínua escalada das tensões no Oriente Médio/Ásia Ocidental e, recordando nossas respectivas posições nacionais, conclamamos ao exercício da máxima contenção, bem como à abstenção de ações que possam agravar ainda mais a situação”, diz o texto. Em documentos diplomáticos, é comum a prática de não citar nomes e países em pontos específicos, o que facilita a chegada a um consenso.
Reforma da ONU e críticas a tarifas unilaterais
Em outro ponto, a declaração defende a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), “com o objetivo de torná-lo mais democrático, representativo, eficaz e eficiente, e de ampliar a representação dos países em desenvolvimento”. O conselho é o principal órgão da ONU encarregado de zelar pela manutenção da paz e da segurança no planeta, formado por 15 países, dos quais apenas cinco têm status de permanentes e poder de veto: EUA, China, Rússia, Reino Unido e França. O Brasil pleiteia assento permanente há décadas, e a declaração registra que “China e Rússia, como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, reiteram seu apoio às aspirações do Brasil e da Índia de desempenhar um papel maior na ONU, incluindo seu Conselho de Segurança” — sem, no entanto, citar especificamente a entrada do Brasil como membro permanente.
Os signatários também expressaram críticas a barreiras no comércio internacional, como a imposição de tarifas unilaterais: “Manifestamos sérias preocupações com o aumento de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais que distorcem o comércio e são incompatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio.” O documento não menciona nominalmente os Estados Unidos, país que tem aplicado tarifas a parceiros comerciais desde que Donald Trump assumiu a Presidência, em 2025, nem cita o nome de Trump. Assim como o Brasil, China e Índia estão entre os principais alvos dessas tarifas. A declaração também aponta que os países caminham para soluções práticas de pagamentos transfronteiriços em moedas locais, mas não menciona a criação de uma moeda própria do Brics nem propõe substituir o dólar. No 15º parágrafo, os signatários assinalam que erradicar a pobreza “é o maior desafio global e requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável”, e o documento registra a proposta do Brasil e da África do Sul de criar um painel internacional sobre desigualdade.
