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Presidenta da SBPC diz que ciência ficou fora do debate eleitoral de 2026

A presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, afirmou que temas estratégicos para o Brasil — do envelhecimento populacional à transição energética, passando pela capacidade de processar os minerais críticos existentes no subsolo do país — seguem à margem do debate eleitoral, enquanto o cenário político e as denúncias envolvendo o caso Master monopolizam as atenções no país.

Para Francilene, doutora em engenharia elétrica, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e à frente da SBPC desde 2025, os recentes escândalos e as disputas pessoais aprofundam o esvaziamento das discussões sobre temas como ciência, transição energética e a necessidade de o país se preparar para cenários adversos, incluindo uma crise sanitária.

Ciência ficou fora da agenda das candidaturas

Segundo a presidenta da SBPC, o país “acaba sendo obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento, quando as duas coisas fazem parte de uma mesma agenda”. Ela afirmou: “É importante dizer que a ciência brasileira ainda não entrou nessa campanha. Justo a ciência, que depende de regras estáveis, orçamento previsível e atenção — inclusive quando estamos à beira de novas crises pandêmicas.”

Ainda de acordo com Francilene, esse debate “vem sendo discutido quase que em lacunas, de forma periférica, porque a agenda [eleitoral] está sendo ocupada por temas que a sociedade não escolhe”. Ela disse que a SBPC lançou o Observatório das Eleições “justamente para tentar levar mais de uma centena de propostas de políticas públicas” consideradas importantes para o desenvolvimento do país, buscando engajar candidaturas em temas como mudanças climáticas e seus impactos nas cidades, risco de novas crises pandêmicas e o processo de transformação digital — assuntos que, segundo ela, ainda não entraram nas campanhas.

Questionada se a ciência fica à margem do debate eleitoral por causa da atual crise político-institucional ou por um padrão histórico, Francilene respondeu: “Historicamente, a ciência fica à margem do debate.” Ela lembrou que isso mudou um pouco em 2020, durante a pandemia de covid-19, e voltou a ganhar peso em 2024, com as enchentes no Rio Grande do Sul, as queimadas no Centro-Oeste e a seca e escassez hídrica em regiões do Norte e do Nordeste, fenômenos que atribuiu ao “novo regime climático”. Segundo ela, no atual debate eleitoral as temáticas “acabam fugindo ao que de fato interessa do ponto de vista de um projeto de nação”, diferentemente de outros países que colocam em pauta temas como o aproveitamento de terras raras, fundamentais para a indústria de transformação digital.

Observatório das Eleições tem baixa adesão de candidaturas

De acordo com Francilene, o Observatório das Eleições reúne pouco mais de uma centena de candidaturas engajadas, das quais apenas uma de âmbito Executivo federal e nenhuma de âmbito estadual — ou seja, nenhum candidato a governador se comprometeu com as propostas da entidade. Ela disse que alguns candidatos a deputado federal e ao Senado vinham aderindo, mas o movimento perdeu velocidade nos últimos dias em razão da crise política, que também afasta a discussão sobre o financiamento da ciência.

Questionada sobre a gravidade das suspeitas em apuração, a presidenta da SBPC afirmou que, “enquanto entidade científica”, não cabe à SBPC “fazer julgamento prévio de processos investigativos em andamento”. Ela citou nota pública divulgada pela SBPC, pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e por outras entidades científicas na semana anterior, defendendo o cumprimento do rito processual e do direito à defesa, e afirmou que “é fundamental entendermos que a integridade das instituições, os legítimos protocolos definidos na Constituição Federal, precisam ser respeitados e cumpridos dentro dos prazos legais”. Para ela, o problema surge quando vazamentos de informações ocupam a centralidade do debate público e esvaziam discussões sobre temas relevantes.

Envelhecimento populacional e crises climáticas e sanitárias

Entre os temas que a SBPC considera centrais para o Brasil, além dos investimentos em educação, ciência e tecnologia e da regulamentação da exploração de terras raras, Francilene citou os impactos da crise climática, “que já é uma realidade”, com aumento dos eventos climáticos extremos que afetam inclusive a agroindústria. Ela mencionou também a necessidade de discutir novas crises sanitárias pandêmicas e como o Sistema Único de Saúde (SUS) está se preparando para elas: “Precisamos melhorar as imunizações. E, para isso, vamos ter que discutir e rever estratégias, pois sabemos que uma parte da população nega a importância das vacinas.” Para ela, é preciso ainda discutir os impactos das transformações digitais e da inteligência artificial e “qual espécie de soberania o Brasil está construindo para a próxima década”.

Ao ser perguntada se a classe política não estaria sabendo avaliar e pautar os temas que importam para o futuro do país, Francilene respondeu: “Provavelmente não. Esta é uma grande preocupação para a comunidade científica.” Ela citou como exemplo o horizonte de pouco mais de dez anos, quando o Brasil terá mais pessoas acima de 60 anos do que na faixa etária produtiva, e questionou: “que espécie de soberania e autonomia teremos construído para o Brasil? O país vai voltar a ser um país colônia, [exclusivamente] exportador de matéria-prima? Será isso que a população quer?” Segundo ela, “parte da própria classe política parece nos dar uma demonstração de estar um pouco alheia aos debates fundamentais para o futuro do país”, o que “preocupa muito a comunidade científica”.