As fortes chuvas que atingiram o estado de São Paulo entre quinta-feira (10) e o fim de semana deixaram ao menos oito pessoas mortas e uma desaparecida, além de quedas de árvores e alagamentos em diversas cidades. Dados do governo estadual mostram que setembro de 2026 já é o mês mais chuvoso da história na capital paulista.
Segundo o levantamento, que toma como referência a estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) no Mirante de Santana, na zona norte da capital, em funcionamento desde 1943, a chuva acumulada chegou a 253,8 milímetros (mm) até as 9h desta segunda-feira (14) — acima do recorde anterior, de 243,1 mm, registrado em 1983. A média histórica de chuva para o mês na região é de 83,3 mm; outros anos excepcionalmente chuvosos foram 1957 (197,2 mm), 1993 (206,7 mm) e 2015 (201,7 mm).
Recorde também se repete no interior
Outras regiões também tiveram volumes excepcionais: em Campinas, entre 1º e 13 de setembro, choveu 257,2 mm, recorde na série iniciada em 1961; na região de Registro, que enfrentou os alagamentos mais severos do fim de semana, foram 185,3 mm até o dia 13, o terceiro maior volume da série histórica; e em São José dos Campos, o acumulado chegou a 161 mm, também o terceiro maior para o mês desde 1977.
Desabamento na Penha mata seis pessoas
Na capital, um prédio em construção desabou sobre casas vizinhas na madrugada de sábado (12), na Rua Tequeci, no bairro da Penha. Os bombeiros localizaram todas as vítimas: uma criança e um homem sobreviveram, enquanto três mulheres — uma delas grávida —, dois homens e uma criança morreram. Segundo o governo estadual, morava no local uma família da Bolívia; cinco dos mortos eram bolivianos e um era paraguaio, e os corpos seriam levados para sepultamento no país vizinho. Casas do entorno foram vistoriadas e três seguiam interditadas pela Defesa Civil municipal.
O prédio residencial de 12 andares estava embargado desde 2021, quando a prefeitura entrou com ação judicial para demolição da construção irregular, após fiscalizações, ordem de interdição e multas — uma delas de R$ 119 mil. Em 2022, a empresa apresentou novo projeto, autorizado, prevendo a demolição da estrutura antiga; mas em fevereiro de 2024 um laudo assinado por uma servidora da Subprefeitura Penha afirmou que a demolição já havia sido feita, o que, segundo apurações preliminares, não ocorreu. A servidora foi afastada por 30 dias, e o caso está sob investigação da Controladoria Geral do Município. Um dos sócios da construtora New Home foi preso na manhã de domingo (13); outros dois representantes são procurados, com mandados de prisão em aberto.
Enxurrada arrasta três pessoas em Jandira
Em Jandira, na região metropolitana, três pessoas foram levadas por uma enxurrada. Na noite de sexta-feira (11), uma mulher foi encontrada sem vida; um homem foi localizado no domingo (13) e outro não havia sido encontrado até então, com buscas concentradas pelos bombeiros em um piscinão na cidade vizinha de Carapicuíba. Em Vargem Grande Paulista houve queda de muro e de barreira e deslizamentos, com uma residência atingida sem feridos. Cotia, Osasco, Mogi das Cruzes e Itapecerica da Serra também registraram alagamentos e queda de árvores.
Rios sobem no Vale do Ribeira e no interior
Em Eldorado, no Vale do Ribeira, o Rio Ribeira de Iguape subiu cerca de 9 metros e inundou a área urbana, levando à retirada de 54 famílias, totalizando 173 pessoas. Em Sete Barras, o transbordamento do mesmo rio afetou 50 moradias. Em Itu, houve queda de muro de arrimo sobre duas residências, deslizamentos de terra e rochas e três quedas de árvores.
Segundo a agência SP Águas, dos 20 pontos monitorados nos rios Tietê e Pinheiros, a tendência predominante no fim de semana era de estabilidade, com extravasamento em quatro deles. Na região do Ribeira de Iguape, que tem os rios Ribeira de Iguape, Juquiá e Itariri, das 29 estações monitoradas, seis estavam em extravasamento, uma em emergência (Registro), seis em alerta e cinco em atenção. Na região de Piracicaba, com os rios Atibaia, Capivari, Jaguari e Jundiaí, três das 39 estações indicavam extravasamento, outras cinco em emergência e seis em alerta.
Estado segue em alerta para tempestades
Nesta segunda-feira (14), o Inmet mantinha o estado dividido entre alerta laranja (perigo) e alerta amarelo (perigo potencial). O alerta laranja cobria diversas regiões, entre elas Campinas, Piracicaba, Ribeirão Preto e a Metropolitana de São Paulo, com possibilidade de chuva entre 30 e 60 mm/h ou 50 a 100 mm por dia, ventos de 60 a 100 km/h e queda de granizo. O restante do estado seguia em alerta amarelo. O Inmet orientou a não se abrigar debaixo de árvores nem estacionar próximo a torres de transmissão, além de recomendar desligar aparelhos elétricos e o quadro geral de energia, se possível.
A Defesa Civil estadual informou que a segunda-feira começou com chuva fraca a moderada no centro-oeste e sul paulista e na faixa leste, com previsão de muita nebulosidade e tempo instável ao longo do dia. A atenção permanecia voltada à faixa leste, com solo encharcado e maior risco de deslizamentos, além de rios já transbordados no sul do estado. A previsão indicava enfraquecimento gradual do sistema nos dias seguintes, com pancadas isoladas e queda de temperatura, embora o risco de alagamentos e deslizamentos permaneça — em Eldorado e na Barra do Turvo, alguns bairros ainda seguiam alagados.
“Números como esses mostram por que o monitoramento não pode parar. A informação e a percepção de risco são o que permite à população se proteger neste período”, afirmou, em nota, o coronel Araújo Monteiro, coordenador estadual de Proteção e Defesa Civil de São Paulo. Segundo o órgão, a população pode se cadastrar gratuitamente para receber alertas por SMS enviando o CEP da localidade para o número 40199. Em caso de emergência, o Corpo de Bombeiros pode ser acionado pelo telefone 193 e a Defesa Civil pelo 199.
