O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino apontou, em despacho publicado no domingo (13), indícios de que o deputado federal Mário Frias (PL-SP) teve papel de liderança em um esquema criminoso de desvio de emendas parlamentares. Segundo o ministro, os recursos desviados teriam sido usados para financiar o filme Dark Horse, uma dramatização sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, do qual Frias é roteirista e produtor-executivo.
“Há a alusão reiterada, no itinerário delituoso, a um deputado federal, o Sr. Mário Frias, que – no terreno hipotético da investigação – ocuparia um papel de liderança na suposta arquitetura criminosa”, afirmou Dino no despacho. Relator de uma investigação sobre supostas irregularidades na execução de emendas parlamentares, Dino chegou a essa conclusão a partir de dados encaminhados pela Vara Estadual das Garantias de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores do Foro Central Criminal Barra Funda, em São Paulo.
Operação Make Up cumpriu 49 mandados
A Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Make Up na quinta-feira (10), com autorização de Dino, para investigar o desvio de recursos públicos por meio de emendas parlamentares repassadas a uma empresa privada. Ao todo, 49 mandados de busca e apreensão expedidos pelo STF foram cumpridos em quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.
Além de Frias, ex-secretário da Cultura do governo Jair Bolsonaro, a operação teve como alvo a empresária Karina Gama, produtora do filme Dark Horse. Duas entidades ligadas a ela, o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC), figuraram entre os endereços vistoriados.
Segundo as investigações, haveria uma organização criminosa voltada ao uso irregular de recursos públicos, sem prestação de contas, com registros de irregularidades que vão até julho deste ano. As autoridades estimam os desvios em centenas de milhões de reais. A PF investiga a ocorrência dos seguintes crimes:
- Peculato
- Falsidade documental
- Lavagem de dinheiro
- Organização criminosa
- Crimes licitatórios
Processo paralelo sobre repasse ligado ao Banco Master
Corre ainda, de forma paralela à Operação Make Up, um processo distinto sob relatoria do ministro André Mendonça — responsável por todo o caso do Banco Master no STF — que investiga se houve irregularidade no repasse de R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro ao filme, a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Foi o site The Intercept que, em maio deste ano, revelou o pedido de Flávio Bolsonaro a Vorcaro para bancar as gravações da cinebiografia. Após a divulgação de áudios de uma conversa entre os dois, gravada em novembro de 2025, o senador negou qualquer combinação de vantagem indevida e sustentou que os recursos destinados ao filme tinham origem inteiramente privada.
Dino associa esquema a vínculos com o PCC
No mesmo despacho de domingo, Dino apontou ainda uma possível ligação entre o desvio de recursos de emendas parlamentares e organizações associadas à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo o ministro, o material recebido da Justiça de São Paulo indica um esquema de corrupção com vínculos com a facção, além do desvio de verba pública para financiar o Dark Horse.
“No curso da investigação se fortalece a hipótese de imbricação indissociável em um sofisticado esquema de destinação e desvio de recursos públicos, com destaque para emendas parlamentares federais e para a prefeitura de São Paulo. Essa organização alcançaria, inclusive, vínculos com a facção PCC (Primeiro Comando da Capital), consoante linha investigativa mencionada nos autos”, escreveu Dino.
Prefeitura de São Paulo nega irregularidade
A Controladoria-Geral da União (CGU) apontou, em relatórios, irregularidades no direcionamento de R$ 2 milhões em emendas de Frias ao ICB e à ANC — as mesmas duas entidades de Karina Gama vasculhadas na Operação Make Up. Procurada, a prefeitura de São Paulo afirmou que não há irregularidade nos serviços prestados pelo Instituto Conhecer Brasil, ligado ao Programa WiFi Livre, que, segundo a administração municipal, “segue em pleno funcionamento na cidade com 3,2 mil pontos instalados e mais de 760 milhões de acessos registrados”.
“A administração municipal reitera que o serviço contratado foi prestado, passando a parceria por prestações de contas semestrais, período mais rigoroso do que o mínimo legal. As movimentações financeiras da entidade não integram a relação contratual com a administração municipal”, afirmou a prefeitura.
A assessoria do deputado Mario Frias e Karina Gama não haviam se manifestado até a divulgação das informações.
