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Caverna na China guarda o maior conjunto de fósseis denisovanos fora da Sibéria

Os denisovanos são um dos grupos humanos mais enigmáticos da pré-história. Conhecidos pela ciência apenas desde 2010, quando o DNA de um pequeno fragmento de dedo encontrado na caverna de Denisova, na Sibéria, revelou uma linhagem até então desconhecida, eles deixaram marcas no genoma de populações atuais da Ásia e da Oceania, mas pouquíssimos fósseis. Dois estudos publicados em 9 de setembro na revista científica Nature ampliam de forma significativa esse registro e trazem, pela primeira vez, pistas diretas sobre como esses hominínios viviam no sudoeste da China.

As pesquisas foram conduzidas em Bianfu, uma caverna situada nas montanhas da província de Yunnan, por equipes lideradas por cientistas da Academia Chinesa de Ciências, entre eles a professora Fu Qiaomei, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP), que integrou o grupo responsável pela identificação original dos denisovanos.

Sessenta mil fragmentos e cinco confirmações

Encontrar fósseis humanos em uma caverna repleta de ossos de animais é como procurar agulha no palheiro. Para contornar o problema, os pesquisadores examinaram mais de 60 mil fragmentos ósseos combinando uma triagem morfológica prévia com a técnica conhecida como ZooMS, sigla em inglês para zooarqueologia por espectrometria de massa. O método analisa proteínas preservadas nos ossos e permite identificar rapidamente a que grupo animal cada peça pertence, com amostragem minimamente invasiva e baixo custo.

Os fragmentos que se revelaram humanos passaram então por sequenciamento de proteínas antigas. Cinco deles foram confirmados como denisovanos:

  • dois fragmentos do osso parietal, que forma parte da lateral e do topo do crânio;
  • um fragmento da extremidade superior do rádio, um dos ossos do antebraço;
  • dois dentes, um pré-molar e um molar inferiores.

Todas as amostras apresentaram uma variante de aminoácido no colágeno considerada específica dos denisovanos, e outras variações encontradas no esmalte dos dentes reforçaram a identificação, segundo o artigo. Os fósseis humanos vêm de duas camadas de sedimento datadas entre cerca de 167 mil e 134 mil anos atrás, durante um período glacial do Pleistoceno Médio.

O primeiro antebraço denisovano

O destaque do conjunto é o fragmento de rádio, o primeiro osso desse tipo já atribuído a um denisovano. Até então, o conhecimento sobre o esqueleto desse grupo abaixo do crânio era extremamente limitado. A análise indicou uma combinação curiosa: a cabeça e o colo do osso são robustos, lembrando os de neandertais, enquanto o formato geral e a geometria da seção transversal se aproximam mais dos de humanos modernos. Para os autores, esse mosaico sugere exigências biomecânicas e adaptações de comportamento próprias dos denisovanos. Os fragmentos de crânio, por sua vez, chamaram atenção pela espessura.

Com esse material, Bianfu passa a ser, nas palavras dos pesquisadores, o registro fóssil denisovano mais rico conhecido fora da caverna de Denisova. A localização também é estratégica: a equipe destaca que a caverna fica em um importante corredor de migração que liga o planalto Qinghai-Tibete ao leste, ao sul e ao sudeste da Ásia.

Caçadores de presas grandes e ferramentas improvisadas

O segundo estudo, dedicado às estratégias de subsistência, analisou o contexto arqueológico da caverna. As escavações abriram três trincheiras que chegaram a 6,6 metros de profundidade. Ferramentas de pedra aparecem em dez camadas, o que indica ocupação do local de aproximadamente 190 mil a 70 mil anos atrás.

Os restos de fauna apontam para uma caça especializada, voltada a animais de médio e grande porte, que eram aproveitados inclusive pela extração de medula óssea. A tecnologia lítica foi descrita como expedita: os habitantes retiravam lascas de núcleos de pedra conforme a necessidade, usavam e descartavam, sem investir tempo em instrumentos elaborados. Também faziam uso amplo de ossos não modificados como ferramentas. É a primeira vez, no sul da China, que fósseis denisovanos aparecem diretamente associados a esse tipo de material cultural.

Um quebra-cabeça que ganha peças

Nos últimos anos, outros fósseis vêm sendo associados aos denisovanos, como uma mandíbula da caverna cárstica de Baishiya, no planalto tibetano, outra retirada do fundo do mar perto de Taiwan por pescadores e um crânio encontrado em Harbin, no nordeste da China. O novo conjunto de Yunnan preenche uma lacuna geográfica importante e, pela primeira vez, une restos anatômicos a evidências de comportamento.

Os trabalhos estão disponíveis na Nature: o artigo sobre a identificação por proteínas antigas e o estudo sobre as estratégias de subsistência. Juntos, eles mostram que técnicas moleculares aplicadas a milhares de fragmentos aparentemente sem valor podem revelar capítulos inteiros da história humana que permaneciam escondidos no chão das cavernas.