A Rádio Nacional completou 90 anos no sábado (12). Fundada no Rio de Janeiro pelo grupo do Jornal A Noite em 12 de setembro de 1936, com o prefixo PRE-8, a emissora é hoje um dos veículos públicos que formam a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e tem suas ondas alcançando regiões remotas do país com informação, cultura, música e prestação de serviço.
Da rádio privada ao fenômeno de audiência
Quando estreou, o Brasil vivia o desenvolvimento industrial e a expansão das cidades, mas a maior parte da população ainda morava na zona rural e não sabia ler. O rádio foi o primeiro meio de comunicação de massa a falar aos brasileiros de forma mais abrangente, e a Rádio Nacional se tornou símbolo desse fenômeno. Originalmente privada, a emissora foi estatizada pelo governo de Getúlio Vargas na década de 1940. A partir daí, recebeu mais investimentos em transmissores e programação e chegou ao posto de campeã de audiência, segundo registros do Ibope da época.
“A Rádio Nacional já traz um desenho profissional diferente”, explica a historiadora Lia Calabre. A emissora foi pioneira ao selar contratos exclusivos e formar orquestra e elenco próprios de artistas. “O que a Nacional faz? Ela cria as suas vozes”, afirma Calabre. Entre as estrelas que passaram pela casa estão Emilinha Borba, Marlene, Cauby Peixoto, Pixinguinha, Paulo Gracindo e Heron Domingues, apresentador do programa jornalístico Repórter Esso, que chegou a receber milhares de cartas por dia de ouvintes de todo o país.
A Nacional também protagonizou uma virada na comunicação brasileira ao inaugurar, em 1941, a era das radionovelas no país com Em busca da Felicidade, que foi ao ar até 1943. O texto original, do cubano Leandro Blanco, foi adaptado por Gilberto Martins e ajudou a consolidar uma cultura de consumo de dramaturgia que atravessaria gerações e chegaria, mais tarde, à televisão brasileira.
Acervo histórico e reconhecimento da Unesco
O acervo da EBC guarda as fichas dos antigos funcionários da emissora e preserva seis dos nove volumes originais dos roteiros de Em busca da Felicidade. Esse conjunto de roteiros rendeu à EBC o certificado Memória do Mundo, dado pela Unesco em reconhecimento ao valor histórico e cultural do acervo. Atualmente, o material passa por um processo de tombamento no Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan), com previsão de conclusão até o fim do ano, segundo a gerente de acervo e pesquisa da EBC, Maria Carnevale. “A gente tem a perspectiva de que boa parte do acervo da Rádio Nacional seja tombado”, afirma Carnevale, que diz que o passo seguinte será salvaguardar fotos, documentos e programas gravados.
De emissora carioca a rede nacional
Ao longo de sua trajetória, a Rádio Nacional se desdobrou em sete emissoras: a do Rio de Janeiro (1936), Brasília AM (1958) e FM (1976), Amazônia (1977), Alto Solimões (2006), além de São Luís e São Paulo, ambas criadas em 2021. Em 31 de maio de 1958, o presidente Juscelino Kubitschek inaugurou a Rádio Nacional de Brasília, que operava em ondas médias e curtas e permitia que os candangos que construíam a nova capital se comunicassem com familiares em outras regiões — abrindo caminho para a expansão da rede, que ganhou a Rádio Nacional da Amazônia em 1977. Em 2007, com a criação da EBC, a Rádio Nacional passou a ser um veículo público, ampliando o compromisso com a cultura popular e a cidadania.
A emissora também é uma das articuladoras da Rede Nacional de Comunicação Pública, que reúne mais de 140 emissoras públicas estaduais, universitárias ou ligadas a institutos federais, e que compartilham conteúdo informativo, educativo e cultural sem foco comercial. “Esse movimento é muito bem-vindo para que a gente tenha informação de qualidade, verificada, com aval da ciência, para combater a desinformação que hoje é tão flagrante”, aponta o professor do Núcleo de Rádio e TV da UFRJ, Marcelo Kischinhevsky.
Especial em rede marcou a celebração
No sábado (12), estúdios de seis praças — Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, São Luís, Amazônia e Alto Solimões — foram interligados em tempo real em uma programação especial dedicada à história e à presença da emissora pública no país, reunindo apresentadores, artistas, pesquisadores e profissionais de comunicação ligados à trajetória da rádio.
A presidente da EBC, Antonia Pellegrino, afirmou que a Rádio Nacional chega aos 90 anos como um patrimônio do país e também como uma emissora alinhada às demandas atuais de seu público. “Celebrar essa história é também reafirmar o presente e o futuro da Nacional: uma rádio pública, sem fronteiras, conectada ao seu tempo e comprometida com a diversidade do país”, destacou. Já o diretor-geral da EBC, Thiago Regotto, disse que “a história da Rádio Nacional (…) contribui para que ela seja um dos pilares do campo radiofônico para fomentar a radiodifusão pública”.
A programação especial recuperou momentos marcantes da emissora, com participação da equipe responsável pelo documentário 90 anos em 90 histórias e do jornalista Dylan Araújo, do projeto Rádio Memória. A edição também recebeu representantes da escola de samba Estácio de Sá, que atualizou a letra do samba-enredo Alô! Alô! Brasil!, apresentado originalmente em 1997 nas comemorações dos 40 anos da emissora. A emissora acumula troféus; o mais recente foi da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) ao Tarde Nacional SP, melhor programa cultural de rádio de 2025.
Ouvintes de várias gerações
A trajetória da emissora também se mantém viva entre famílias de ouvintes. Hernandez Lopes, de 14 anos, mora em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e aprendeu a ouvir a Rádio Nacional com o pai, que por sua vez herdou o hábito da própria mãe. O adolescente participa do programa Revista Rio por telefone. “Eu peço as músicas que eu gosto e nunca decepciona”, diz. Ele destaca ainda o que chama de magia da escuta compartilhada: “Eu gosto desse estilo antigo, aquele que acaba com a solidão, porque não é só uma pessoa ouvindo uma música, são várias pessoas, e você ainda pode contribuir para a programação”.
